segunda-feira, 20 de setembro de 2010

A História da Dança Oriental a partir das GRANDES ESTRELAS do Egito





Shafiq La Copta

Shafiqah al-Qutubiah (ou el Koptiyva), nasceu em 1851, no subúrbio de Shobra, no Cairo. Sua família era respeitável, conservadora e modesta e ficou escandalizada quando ela começou a pensar em dançar. Aos 19 anos de idade, foi descoberta por Shooq e fugia para aprender a dançar, enquanto sua família pensava que ela estava na igreja. Era estudante da primeira dança oriental egípcia de Shooq. Seus pais morreram quando ela ainda era jovem. Depois que se casou, ela viveu sob circunstâncias pobres e tentando melhorar dançando nos clubes. Com a morte de Shooq, Shafiqa se tornou desde a maior bailarina até a mais rica e famosa do Egito.Shafiqa Al-Qibtiyya já era uma lenda na era de 1920. Era extremamente bela e inteligente e ganhou fama por dançar na boite "El Dorado". Shafie'a Qebtiyya ficou conhecida pelas suas inovações, como dançar com candelabros na sua cabeça ou equilibrar uma bandeja de bebidas no seu corpo. Entre seus admiradores havia muitos ministros e outras pessoas influentes. Este período marcou o começo da era de bailarinas famosas no Egito. Bailarinas de sucesso como Shafiqa Al-Qibtiyya começaram a abrir seu próprio salah (clubes). Shafiqa era proprietária do "Alf Leya" ou "1001 Noites" clube. Tornou-se extremamente rica e dançou com sapatos de ouro, mas seu sucesso não só trouxe seu dinheiro, como ela gastava muito, tornou-se viciada em cocaína e morreu desamparada em 1926.O traje de dança de Shafiqa não era como o das bailarinas mais famosas que 30 anos mais tarde aparecem em cena.



Badia Masabni 

Nascida em 1893, Badia é considerada a avó da dança oriental, nasceu no Líbano e estabeleceu-se no Egito. Abriu o primeiro lugar de música egípcia tornando-se proprietária do "Cassino Ópera", em 1926. Este era o nome oficial do cassino, mas também era conhecido como "Cassino da Badía" ou "Cabaré da Madame Badía". O cassino incluía comediantes, cantores e bailarinas. Ela apresentava suas danças e lá estiveram atuando grandes estrelas, entre elas Taheya Carioca, Nayma Akef e Samia Gamal. Trabalhava com uma equipe completa composta de músicos, tais como Farid El Atrashe e Mohamed Abdul Wahab. Este cassino foi freqüentado por intelectuais egípcios e pela aristocracia nacional e estrangeira da época. Badía mudou o cenário da dança egípcia, criando um novo estilo de dança, usando coreógrafos ocidentais e sendo chamada agora de Raqs El Sharqi. Ela também introduziu um coral de 30 bailarinas. Adorava fazer relações públicas. Certa noite, Badía vendeu o cassino, obteve um passaporte falso e foi para sua terra natal, Líbano.Devia impostos ao governo egípcio. Morreu em Beirute em 1975 e o Egito todo a recorda com carinho. Com Badía formou-se toda a geração de bailarinas egípcias, como Sâmia Gamal e Tahia Carioca. Ambas treinadas por Badía, se tornariam as mais extraordinárias e famosas bailarinas da metade do século XX.


Taheya Karioka

Dançarina egípcia, Tahia Carioca dançou na maioria dos estados árabes e participou de alguns filmes egípcios com estrelas de filmes árabes como, o cantor e compositor Mohamed Ahdel Wahab e Farid Al Atrache. Tahia Carioca tornou-se uma das lendas da dança oriental. Mohamed Karim, seu pai, exerceu sobre ela duas influências: seu amor pela arte e em segundo seus vários casamentos. Seu pai casou 7 vezes e mais tarde, Tahia oficialmente dobrou o número de seu pai, casando-se 14 vezes. Ela foi chamada Carioca na ligação que teve com o samba brasileiro, na qual ela desenvolveu seu estilo no início da década de 30 quando se apresentou no casino de Badia Massabni. Ela se tornou fascinada pelo ritmo brasileiro e pediu ao seu músico que tocasse algo similar. Tahia trouxe para os seus shows os rítmos latinos. A concorrência no Cabaret de Badia era dura, especialmente contra Samia Gamal que também dançava lá no início de sua carreira. Foi uma das melhores bailarinas do Egito, extremamente audaz, recusou-se a dançar para o ditador turco Kamal Ataturk, o qual a proibiu de entrar na Turquia, também recusou-se a dançar para Nazli, rei do Egito. Durante a ultima guerra mundial, exerceu um importante papel, foi responsável por grandes ajudas e donativos. Na maioria das vezes, as apresentações de Carioca eram de 20 a 25 minutos. Mas a fama de Tahia foi rápida, entre 1930 e 1940, desta maneira, se estendeu até o Rei do Egito, Farouk, que a convidou para dançar no seu aniversário. Seu estilo era totalmente diferente de sua rival, Samia Gamal. O primeiro filme que Tahia fez foi "La Femme et le Pantin", lançado em 1935 e depois participou de mais de 120 filmes, como também, de teatro e novelas. Tahia era uma mulher determinada. Ela era uma grande dançarina! Ninguém conseguiu alcançar sua virtuosidade, seu jogo de palavras, gestos e seu jeito irônico de flertar. Ela deixou sua família em Ismaila depois de uma discussão com seu pai e aos 12 anos partiu de trem para o Cairo. Aos 31 anos já era considerada uma lenda da dança oriental! Tahia provou ser uma fonte de inspiração para toda uma nova geração de dançarinas. Quando abandonou a dança, fundou um grupo teatral, a primeira obra que apresentou foi a vida de Shafiqa La Copta, peça de teatro de quatro partes que obteve um grande êxito. Tahia faleceu no dia 20 de setembro de 1999, aos 79 anos de ataque cardíaco.

Nayma Akef


Nasceu em Tanta, no Egito, no dia 7 de outubro de 1932. Sua família era circense e possuía o Circo Akef. Eles viajavam muito fazendo turnês especialmente na Rússia. Em 1957 Naima apresentou sua dança num festival juvenil e ganhou primeiro lugar. No Teatro Bolshoi, há uma foto em sua homenagem. Naima foi descoberta primeiro pelo diretor Abbas Fawzy que lhe apresentou seu irmão Hessein Fawzy. Ele percebeu o talento dela e lhe deu papel principal na primeira vez em que Naima aparecia num filme. Ela teve muito sucesso como atriz, era consciente do seu peso, sua forma física, não poupava esforços nos ensaio. Dotada de grande técnica e estilo, suas coreografias encantaram o cinema egípcio com sua arte de canto, atuação e dança. Atuou em aproximadamente 30 filmes. Sua expressiva dança, teve origem nas atuações acrobáticas sobre cavalos. Foi seu pai quem percebeu seus dons, incentivou e reconheceu seus talentos. Freqüentemente criava suas coreografias mas ficou muito famosa por ser disciplinada e obediente aos seus treinadores. Raramente dançava em casas noturnas. Ela se apresentou algumas vezes no Cassino da Madame Badia Masabni. Após ter se separado de Hessein, ela se casou com seu contador e com ele teve um filho que começou mais tarde a trabalhar com música. Naima morreu de câncer em 23 de abril em 1996 com apenas 64 anos, após uma angustiante batalha. Sua musicalidade e interpretação dramática são imortais.



Samya Gamal

Declarado pelo rei Farouk como: "A dançarina nacional do Egito" em 1949, Samia Gamal é uma das mais famosas dançarinas do mundo. Nasceu em 1924 na pequena cidade egípcia de Wana, mudou-se para o Cairo depois de alguns meses nascida. Seu nome verdadeiro, Zainab, foi alterado por Badía Massabni, que a convidou para se juntar à sua companhia da dança. Como solista Samia desenvolveu um estilo improvisado que incorporou técnicas do ballet e danças latinas. Seu romance com o ator e cantor Farid al Atrache alegrou seus fãs, que viram o casal junto em filmes, como "I Love You" em 1949 e "Afrita Hanem" em 1950. Dançou até quase o fim de sua vida. Ela tinha 60 anos e ainda se apresentava em nightclubs parando completamente em 1984. Mais uma vez retornou aos palcos ouvindo os conselhos de um velho amigo, Samir Sabri. As pessoas eram maldosas com ela em cena e soltavam comentários ferinos enquanto ela se apresentava mas nada detinha aquela mulher. Tentavam atingi-la em sua auto-estima e ela continuava dançando.
"Dança, dança, nada além da dança. Eu dançarei até morrer!"


Soheir Zaki
Texto original, de Francesca Sullivan: Cairo Times

Anwar Sadat, uma vez, a chamou de "the Om Kulthoum da dança." "Da mesma forma que ela canta com a voz, você canta com o corpo", ele lhe disse. O presidente estadunidense Nixon a chamou de "Zagharit," quando soube que essa palavra é uma expressão de alegria. Ela recebeu elogios e medalhas do xá do Irã, do presidente da Tunísia e de Gamal Abdel Nasser. Uma pergunta: o que acontece com uma estrela depois de fazer seu último agradecimento à platéia, pendurar sua roupa pela última vez e fechar suas portas ao público? Após uma vida inteira de dança, sob o olhar do público, recebendo o carinho e amor de uma devotada audiência, ir para casa deve ser entediante.Suhair Zaki mora a alguns passos de um dos cabarés que iluminava a rua das Pirâmides em seus dias de glória, quando nela se enfileiravam ricas casas - a maioria, agora, demolida para dar lugar a quarteirões de apartamentos - e o público dos bares noturnos ainda era a nata da sociedade egípcia. Quando Suheir estava em seu auge, os cabarés da Rua Haram cresciam em número para satisfazer os ricos clientes que vinham dos países árabes. Agora as luzes se atenuam, muitos desses lugares já não existem, substituídos por supermercados e cybercafes.A apenas um quarteirão de distância da rua principal, o bairro não é mais que decadência. Mas entrando no apartamento de Suheir, ainda vemos grandiosidade: a sala de estar ostenta candelabros cintilantes e tapeçarias, iluminada lindamente como um set de cinema. Perfeitamente pontual para nossa visita, Suheir chega andando suavemente, vestida com um elegante terninho laranja e brilhantes jóias de turquesa. O cabelo bem arrumado, a maquiagem fresca. Pareço ouvi-la dizer "I’m ready for my close-up now, Mr. DeMille", só faltaria a escadaria. Mas ao invés disso, ela caminha com firmeza pela sala, segura de onde ficar ou sentar-se em frente à câmera. Quando comento isto ela sorri: "Não se esqueça que meu marido era câmera. Foi em um filme que nos encontramos", e posa para as fotos com toda a naturalidade. Mas espere... Se estamos interessados na vida de uma lenda, talvez seja melhor começar do início. Suheir Zeki nasceu em Mansoura, onde ela e sua família viveram até seus nove anos, quando se mudaram para Alexandria. Música e dança não eram o forte da família: seu pai trabalhava no ramo de construção civil e sua mãe era enfermeira. Mas Suheir se apaixonou por ambos desde pequena e aprendeu sozinha a dançar, ouvindo o rádio. Seu talento natural se revelou cedo e ela era notada nas festas de aniversário e casamento de seus amigos e parentes. "Eu ia direto da escola para o cinema, assistir a Tahia Carioca e a Samia Gamal na telona. Até cortei meu cabelo imitando a Fairuz", ela conta, se referindo à pequena atriz de cinema do cinema egípcio antigo. O desejo de Suheir de dançar em público superou a desaprovação de seu pai, mas talvez fosse parte de seu destino, já que seu pai morreu quando ela era ainda bem nova, e sua mãe casou-se de novo. Foi seu padrasto que deu um empurrão em sua carreira, arrumando sua orquestra e se tornando seu empresário. "A melhor época de minha vida, quando olho para trás, foi nesses dias quando comecei a dançar em Alexandria. Eu estava desabrochando, tornando-me mulher, sentindo as mudanças no meu corpo, e no entanto não tinha preocupações e responsabilidades. Sempre tive, na minha carreira, alguém para cuidar da parte dos negócios, alguém dentro da família, que levava no coração os meus interesses e os de minha mãe". Ela trabalhou regularmente nos bares de Alexandria, onde a audiência era heterogênia, com muitas pessoas da comunidade grega que dominava a cena dos bares naquela época. Fama e fortuna chegaram quando, em 1962, uma festa de celebridades em Alexandria foi transmitida em rede nacional, e a jovem Suheir apareceu ao lado de outros artistas locais. Ela foi notada pelo diretor de TV Mohammed Salem, que foi então em busca da "garota de cabelos longos". "Eu era a única dançarina daquele tempo que não usava peruca nem muita maquiagem. Ele queria me transformar em apresentadora de TV, e eu fui à audição, mas não me saí bem. Minha voz não era boa, e, além disso, eu só queria dançar." Mas Suheir foi para o Cairo, onde se apresentava em casamentos e bares até altas horas da madrugada. Sua fracassada audição para apresentadora acabou sendo apenas o começo de sua carreira na televisão. "Haviam programas de TV semanais com apresentações de dança, como o On The Banks Of The Nile, Adwa’ Al Medina e Zoom. Eu era dançarina solo regular e também dançava o tableaux do coreógrafo Ibrahim Akef," ela diz. Akef, primo da dançarina e atriz Naima Akef e coreógrafo das melhores dançarinas das décadas passadas, ainda hoje leciona. "Ele ensaiaria as dançarinas do grupo; e eu viria na útlima cena. Eles costumavam dizer sobre mim, 'Suheir ouve a música uma vez, e dança sem ensaiar."Seu preciso ouvido para a música era famoso. "Em toda minha carreira, nunca levantei a voz para um membro da orquestra. Se alguém tocava uma nota errada, eu sabia quem era mesmo se tivesse de costas para ele. Depois, eu o chamava num canto e lembrava exatamente em que parte da música ele tinha errado. Os músicos sempre respeitaram isso."Embora a televisão tenha ajudado a fazer o nome de Suheir, foram as apresentações nos bares e casamentos que a sustentavam financeiramente. As dançarinas daquela época eram as estrelas dos cabarés, ao contrário de agora, quando os cantores se destacam."O primeiro bar em que dancei foi o Auberge, na Rua Haram. Minhas contemporâneas eram Ne’met Mokhtar e Zeinat Olwi, e na geração seguinte tínhamos Nagwa Fouad, Nahed Sabri e Zizi Mustafa. Fifi Abdou dançava um pouco abaixo na rua, no Arizona." Apesar de haver muito trabalho, a competição era acirrada, as dançarinas tentando superar umas às outras no tamanho da orquestra, na riqueza das roupas e assim por diante.Minha maior rival era a Nagwa Fouad - competíamos ferozmente. Se íamos dançar no mesmo lugar na mesma noite, corríamos para vestir-nos e levar a orquestra ao palco antes da outra. Enquanto Nagwa adorava flashes e empompava tanto suas performances que elas pareciam shows de Las Vegas, Suheir era o extremo oposto.

Raqia Hassam, renomada professora e coreógrafa que levou Suheir ao Oriental Dance Festival, reafirma sua popularidade:"Suheir Zaki sintetiza a dançarina 'natural'. Saltava aos olhos sua simplicidade: ela traduzia a música com precisão e naturalidade, sem excessos e extravagâncias. Seus passos têm impressão duradoura e até hoje são ensinados. Ela sempre foi ela mesma em frente ao público - nunca representou. Tal qual você a vê, frente a frente, agora: calma, falando macio e educada, assim era ela em cima de um palco."
A imagem clichê da dançarina oriental - sensual, sedutora e impetuosa - entra em conflito com essa descrição. E, talvez por isso, explica por que Suheir Zaki manteve-se no controverso mundo da dança com sua reputação praticamente intacta. Ela orgulha-se de dizer que dançou nos casamentos das filhas de Gamal Abdel Nasser e Anwar Sadat; que foi constantemente escolhida para entreter os visitantes ilustres, desde o ministro da defesa russo até o presidente estadunidense, e que, quando se tornou a primeira dançarina que ousou interpretar as reverenciadas músicas de Umm Kulthoum no palco de um bar, contou com a aprovação da própria cantora.
"Numa noite, estávamos indo de um show para outro quando Inta Omri, de Umm Kulthoum, tocou no rádio. Eu disse que seria lindo dançar aquela música. Seu ritmo, sua melodia complexa, me fazem querer levantar e dançar. Apesar de fervorosas objeções, bati o pé fui em frente. Aconteceu do Mohammed Hassanein Heikal, que comandava o Al Ahram, estava na platéia naquela noite, e ele escreveu sobre isso no jornal. Logo fomos chamados para apresentar-nos em uma festa de elite em uma casa no Zamalek," lembra Suheir. "Assim qie começamos a tocar uma música da Umm Kulthoum, me deparo com essa senhora em pessoa entre o público! Eu e os músicos gelamos, rezamos para vir um terremoto e a terra nos engolir. Mas quando acabou o show, Umm Kulthoum veio até nós e nos parabenizou! Disse que tínhamos sido maravilhosos e que estava encantada com a banda, que tinha tocado a música tão bem, música que ela mesma tinha cantado algumas semanas antes, precisando de muitos ensaios com a orquestra. Foi o maior elogio que eu jamais poderia receber. Depois disso, fiquei famosa por dançar as músicas dela na televisão, e foi isso que realmente espalhou minha fama pelo mundo árabe."
É claro que o cinema também ajudou. Suheir fez mais de 100 filmes ao longo de sua carreira, ao lado de estrelas das telas como Farid Shawqi, Shokoukou e Shadiya. Ao contrário de dançarinas anteriores como Tahia Carioca, Naima Akef e Samia Gamal, ela nunca gostou muito de atuar. Seus papéis eram geralmente pequenos; ela ia para dançar. Mas ela garante, "se pusessem minha foto no pôster do filme, atraíam multidões." Ela encontrou seu marido, Mohammed Amara, em um set de cinema. Foi um casamento feliz, já que ele era de uma família acostumada às pressões do mundo artístico. O sogro dela, Ibrahim Amara, é tido como responsável por levar Abdel Halim Hafez para as telas em seu primeiro filme, Lahn Al Wafa’ (Canção da Sinceridade), e o tio do marido dela era o renomado diretor Hassan Al Seifi.
"Meu marido, por ser artista também, me compreendeu. Tínhamos muito em comum." No entanto, a vida de casados tinha que se espremer entre seus compromissos com os bares, TV e cinema, e custaram muito a conseguir formar uma família.
"Engravidei várias vezes, mas sempre sofria aborto, talvez por causa das pressões do trabalho. Só consegui ter um filho quando já começava a ficar tarde demais. E isso o torna ainda mais importante para mim." Como se tivéssemos combinado, o filho de Suheir, Hamada, entra no quarto. Ele tem quinze anos, e está estudando muito para as provas. "Para o ano, inshallah, ele irá para a faculdade nos Estados Unidos", diz Suheir. No final dos anos 80, o cenário da dança começou a mudar, e Suheir, vendo o andar da carruagem, começou a pensar em despedir-se dignamente. Grandes mudanças já se faziam na maneira que a sociedade via a dança. "Um dos dias mais tristes da minha vida foi quando a dança foi tirada da televisão. Foi Deus que me deu a fama, mas foi a televisão que me levou às casas das pessoas. Lembro de ouvir o anúncio, no rádio, das celebrações de aniversário da televisão, e não haveria dançarinas. Eu tinha participado daquele evento todos os anos, desde que começou. Chorei muito." Houveram outras razões, também, para que Suheir decidisse se aposentar. O visual das dançarinas estava mudando. Veja as roupas, por exemplo. No meu tempo, usávamos volumosas saias de chiffon e parecíamos princesas. De repente, tudo virou lycra. Quando você gira, a lycra não se move com você, ela gruda. Ser dançarina não é mostrar seu corpo e posar num palco. É mostrar a arte de dançar. Eu nem olhava direto para alguém da audiência antes de acabar o show e agradecer." Apesar dessa afirmação, filmagens antigas de Suheir entregam que ela gostava de usar seus olhos tanto quanto seu corpo. E se você apontar a câmera em sua direção, ela mira a lente com um olhar penetrante e carismático.
O fluxo de dançarinas estrangeiras para o mercado - que só começou quando Suheir deixou a cena, também não a impressionou. "Às vezes parece ter uma invasão das russas. Se eu fosse um empresário egípcio levando clientes para um bar, por que pagaria uma nota alta para assistir uma estrangeira dançar? Na abertura do festival do ano passado, vi algumas estrangeiras dançando no palco. Fiquei impressionada vendo a música fazendo uma coisa e elas fazendo outra completamente diferente!"
Sair pela cidade é coisa rara dela fazer agora, ela diz. Fica em casa, cuidando da família e os poucos amigos íntimos. O que nos traz de volta a questão inicial. Como é virar as costas a algo que você amou por tanto tempo?
"Da primeira vez que larguei a dança e resolvi aposentar, fiquei deprimida muito tempo, e pesava mais de oitenta quilos. Meu marido estava preocupado e me levou ao médico - o marido da atriz Hind Rostum. Ele me olhou e disse, 'É simples: você sente saudades da vida que tinha, assim como Hind. Você era festejada e adorada, e agora ninguém está te vendo.'", diz Suheir. "Ele me preparou uma dieta, e eu comecei a exercitar-me. Vou ao clube regularmente, caminho, e como bem pouco. Meu maior conselho, se você quer parecer jovem: durma o máximo que puder. Eu durmo pelo menos 9 horas por noite."
Quando foi convidada para participar do festival por Raqia Hassam, Suheir relutou em aceitar. "Mas fui persuadida por colegas, que disseram que seria bom para mim e para a dança." Raqia ficou impressionada pelo impacto que a presença de Suheir causou nos agendamentos. "Só quando a agenda começou a lotar que eu pude compreender o quão adorada a Suheir é no mundo todo. Quase toda dançarina que veio ao festival fez a incrição para o workshop dela."
Talvez o evento tenha mostrado para Suheir o tamanho do impacto que sua carreira fez na dança. Ou isso é algo que ela já sabe mas prefere não valorizar demais. Como diz uma famosa canção de Umm Kulthoum, "Então você quer voltar aos velhos tempos? Tente pedir a eles que voltem como eram.""Aqueles dias nunca voltarão - a atmosfera, os convidados. Onde estão agora? A Dança Oriental foi minha vida.




Nagwa Fouad

Nascida em 1942, foi a bailarina mais famosa na 2a metade deste século. Seu começo artístico foi como secretária em uma empresa de organizações de festas e daí passou para o teatro e dança. Afastada de sua casa em Alexandria, sonhava em dançar no Cairo. Participou de muitos filmes com um êxito sem precedentes. Sua fama ultrapassou o mundo árabe e passou a representar o Egito em muitos festivais turísticos. Dentro de seus espetáculos, foi a pioneira a incorporar elementos originais e sofisticados, dando a Dança Oriental um teor muito mais adaptável no mundo Ocidental. Desta forma, viajou inúmeras vezes para a Europa, América do Norte e Ásia, onde participou dos grandes festivais. Nos Estados Unidos realizou várias apresentações dedicadas especialmente aos habitantes de origem árabe e fundou uma escola de dança oriental em New York. Seu grupo de dança reconheceu diversos elementos de origem folclórica tanto egípcios quanto de outros paises árabes. Em 1976, o compositor Mohammad Abdel Wahab escreveu uma música especialmente para ela, de nome Arba'tashar. Nesta dança, Nagwa diz ter podido combinar a dramaticidade de Tahía Carioca e as acrobacias de Naima Akef. Este foi seu primeiro grande sucesso responsável por seu reconhecimento. Após ele, foi obrigada a criar novas coreografias a cada três meses. Nagwa com seus movimentos de braços e sinuosidades do quadril reserva sempre um momento do show especial para a Camanja (violino). Foi também cantora e artista de cinema e teatro; e em 1922 quis interromper definitivamente sua carreira de dança, para consagrar-se no cinema, mas não conseguiu devido a inúmeros pedidos, alegando ser insubstituível. Cativou numerosos políticos, entre eles o estadista Richard Nixon, o egípcio Anwar el Sadat e também o presidente Carter e Henry Kissinger.


Fifi Abdo


Com seus quase 60 anos, é atualmente a bailarina de maior sucesso no Egito, juntamente com Dina e a que paga um dos mais altos impostos. Dotada de um quadril incrivelmente potente, sua dança é forte e impressionante. Foi empregada doméstica de um músico que descobriu seu talento e iniciou sua carreira. A Rainha da Dança do Ventre diz não ter rivais, pois para ela, uma moça que balança os quadris não significa que é uma dançarina. Mas todos sabem que, assim como Tahia Carioca era rival de Samya Gamal e Nagwa Fouad era rival de Souhair Zaki, Fifi Abdo tinha Lucy como sua rival da época. Fifi faz doações para aproximadamente 30 famílias carentes, mas os islâmicos dizem que seu dinheiro é sujo e ilegal, que não deve servir de alimento para ninguém. Ela contesta que seu dinheiro é bonito, porque e ganho graças a seu árduo trabalho. Que no meio do inverno, ela dança descalça, sobre um chão frio, enquanto mulheres de alta sociedade, vestidas em pele, assistem-na na platéia. Sua personalidade é rebelde. Fifi Abdo, sem dúvidas, causa inveja a qualquer dançarina com seu estonteante shimmie (tremor dos quadris). Em sua orquestra, o alaúde toma frente, para atuar em combinação com seus shimmes.

Lucy

Da mesma época de Fifi Abdo e até considerada sua rival, foi uma dançarina extraordinária e reconhecida por seus movimentos rigorosos, bonitos e controlados e uma simpatia sem igual. Quando pequena, praticava ballet clássico, mas diz que se recorda pouco dessa fase. Inspirada em Tahia Carioca e Samia Gamal começou a atuar como atriz, mas em suas atuações. Lucy misturava passos de dança e muitos perguntavam se era uma atriz ou uma dançarina. Ela respondia que esta era uma pergunta errada, e dizia que havia algo dentro dela, que não podia ser separado. "A arte é uma totalidade, e não pode ser dividida. O artista, o ator principalmente, deve ser competente em cantar, não o tarab, que e completamente diferente, mas em cantar em ritmo, em movimento... e em dançar, se isto requerer dele", dizia Lucy. "Dançar é minha prioridade. É o que eu nasci fazendo, e logo a dança mais refinada, que e o ballet. Dançar tem que vir primeiramente, depois atuar e então cantar. Eu amo todos os três, me amo em todos os três e graças a Deus, me realizo em todos o três". Lucy foi considerada uma alma nova em Alexandria. "A Dançarina de Dança do Ventre e Atriz de Cinema". Foi reconhecida por vários papeis importantes no cinema, e deu aulas de dança nos Estados Unidos. Lucy, hoje, dona do Cabaret Parisiana, continua com a mesma simpatia e sorriso encantando seu público eternamente.

Mona El Said

Mona Ibrahim Wafa nasceu em 1954. Descendente de africanos, muito simplista. Começou a dançar profissionalmente aos 13 anos. Sua dança significou uma fuga do Egito para Líbano em 1970, para escapar da raiva de seu pai beduíno e conservador. Quando retornou ao Cairo em 1975, já era uma estrela. Sua dança é caracterizada por uma intensidade e nuance. No entanto, tem momentos em que ela pára de dançar durante alguns períodos. Estes aparentemente coincidem com algum fato de sua vida particular. Mona sempre esteve dividida entre Londres e Cairo. Em seu repertório, músicas clássicas e uso de flautas eram imprescindíveis. As performances de Mona Said vinham sempre acompanhadas de uma grande orquestra, assim como todas as grandes dançarinas da época, Nagwa Fouad, Lucy, Fifi Abdo, Dina, etc.No Egito é comum que as dançarinas empreguem os músicos; e Mona Said dizia que havia contratado os mais sofisticados músicos daquela época. Mona dançava mais em Londres, que no próprio Cairo. Seu estilo único fez de Mona uma das grandes estrelas da dança do ventre do século 20. Deu centenas de workshops nos Estados Unidos e em vários outros paises. Seu estilo hoje está bem diferente dos exageros de outrora.



Azza Sharif

Esta bailarina iniciou seus estudos em dança ainda na infância, e aos 18 anos já era bailarina profissional nos Hotéis egípcios Sahara City e Hilton Al Nile, com ajuda de sua amiga, a bailarina Nahid Sabry. Mas ela não podia dançar no Egito, sua terra natal, porque para dançar profissionalmente a idade mínima permitida era 20 anos. Então ela viajou para dançar emvários países, como Alemanha, Inglaterra e para Beirute, Líbano, até completar 20 anos, quando retornou ao Egito fechando contrato com Mena House e dançando emeventos com Abdel Halim Hafez, Yousry Wahbi. Om Kaltoum falou sobre Azza: “Seu corpoé perfeito para a Dança Oriental.” Ela é uma das dançarinas mais amadas no Egito. Foi na década de 70 que Azza começou a dançar no cinema, tendo feito cerca de 21 filmes. Antes da guerra civil no Líbano, dançou em várias casas em Beirute. Casou-se em 1970 com o cantor Katcout El Amir, conhecido como Cat, mas atualmente, estão divorciados.

Nádia Gamal

Nasceu em Alexandria, em 1937.. Responsável pelo surgimento da primeira escola de Dança do Ventre em Beirute. Sua dança era sofisticada e parecia reunir muitos estilos que forneciam a força de sua identidade. Nadia possui uma dramaticidade, que combinava perfeitamente com performances de dança com teatro. Chegou a trabalhar durante muito tempo com o tablista Setrak, formando uma dupla de coesão explicita. Por duas vezes esteve nos Estados Unidos, ministrando cursos. Sempre será símbolo da perfeita interpretação da música. Faleceu em 1990 de câncer.

Farida Fahmy

Farida é uma bailarina egícpia que, ao lado de Mahmoud Reda, mudou a imagem da dança egípcia  até então  ligada o estilo de dança do ventre de Hollywood. Em uma entrevista em 1995, Farida declarou que o amor da vida dela era e é “raks chaabi, a dança folclórica”.Raks chaabi voltou às raízes egípcias, a cultura popular e folclórica.  Co-fundadora e principal bailarina do Reda Troupe, criada pelo coreógrafo Mahmoud Reda que dirigia suas forças para a renovação da dança egípcia, tornando-se ele próprio um compositor, coreógrafo e dançarino ao mesmo tempo. A Companhia de Mahmoud Reda é financiada pelo governo Egípcio na medida em que é encarada como representante do folclore egipcio. O grupo viaja por todo o Egito investigando e analizado as danças folclóricas e depois organiza tournées mundiais para promover essas danças como uma forma de Arte, digna de respeito. O trabalho do Reda influenciou e moldou o que hoje é conhecido por Dança Oriental e muitos dos grandes nomes ligados à dança oriental, tais como Raqia Hassan, Momo Kadous, Mo Geddawi and Yosry Sherif. Atualmente, Farida viaja o mundo todo ministrando workshops e ensinando ao mundo a mais autêntica dança egipcia. Farida dançou aos 17 anos no musical “Ya Leil Ya Ein”, patrocinado pelo estado egípcio. Zakaria Abdul Rahaman Al-Heggawi fora o autor da opereta, primeiramente apresentada no palco da Casa de Óperas. “Ya Leil Ya Ein” é considerada a primeira peça folclórica que destacou a trupe de Reda para o público geral. Suas irmãs mais velhas eram casadas com Mahmoud Reda.


Dina

Não é somente a marca registrada da dança do ventre atual, mas é uma das mais talentosas e também altamente educada e simpática. Durante sua carreira dançando, fez dois diplomas de filosofia, que são iguais a um grau de mestre. Estudava durante o dia, enquanto dançava a noite. Dina começou sua carreira dançando juntando os grupos de folclore de Mahmoud Reda. Começou a dançar sozinha em Dubai. Isto deu logo aquela senhorita o poder de fechar contratos com os hotéis Sheraton e Marriot no Cairo. Dina vê a dança como uma arte física, que combina a aptidão e movimentos elegantes de dança. "Embora muitos estrangeiros estejam executando a dança do ventre no Egito, não são considerados bons interpretes da musica árabe", diz Dina. "No Brasil, você encontra bailarinas que dançam muito bem. Se eu quiser tentar dançar como uma menina brasileira, o resultado vai ser muito diferente, porque eu ouço a musica diferentemente".Dina com seus olhos verdes, cabelo longo preto, figura perfeita e movimentos graciosos do corpo que revelam um talento admirável, está no coração dos árabes e estrangeiros. Dina dedicou uma parte grande do seu tempo, para dar oportunidades educacionais e de performances para aquelas interessadas na arte da dança do ventre egípcia e de promover esta arte ao publico geral patrocinando seminários, workshops e eventos, a que esteja disponível ao redor do mundo. Dina foi à Arábia Saudita para submeter-se ao quinto pilar do Islam, Hajj, e em seu retorno do Hajj, ela anunciou que estaria se aposentando do mundo da dança completamente. Disse que estaria devotando sua vida à Deus. Entretanto, o amor de Dina pela dança era demasiadamente grande, e assim ela anunciou que em qualquer hora estaria voltando a dançar. Aparentemente também tem ofertas dos produtores egípcios para estrelar vários filmes. Dina não conseguiu se separar da dança. Continua sendo contratada para shows e workshops em vários países. Atualmente é a bailarina mais bem paga do mundo e considerada, merecidamente, a top da dança do ventre mundial.




Randa Kamel


Randa Kamel comecou sua carreira com 16 anos em Alexandria. Logo passou a estudar com Raqia Hassan e Ibrahim Akeff e tornou-se uma das melhores dancarinas do Egito. Desde jovem, dedicou-se a aprender Ballet Clássico e, antes de empreender carreira solo, dançou alguns anos com Reda Troupe. Hoje viaja todo o mundo dançando e ministrando workshops. Ela é uma das professoras mais cotadas do Famoso Anual Ahan Wa Sahlan Festival no Cairo, além de muitos outros como no Brasil e Sweden. Possui um estilo delicado e elegante. Ela tem o poder de fazer a audiência chorar em emoção quando sintoniza perfeitamente movimentos e música. Randa é sem dúvidas, atualmente, o grande expoente da dança no Egito e mesmo com curto tempo de carreira em comparação à demais estrelas aqui citadas, merece, sem dúvidas, estar entre elas!
Em entrevista à bailarina Yasmina no Cairo, Randa revelou que aprecia muito estudar os vídeos de Soheir Zaki, referindo-se ao seu quadril , Mona Said , estuda os braços desta bailarina e Nagwa Fouad pela utilização do espaço cênico alem de inspirar-se também na presença de palco de Fifi Abdo. Com relação a músicos, ela aprecia dançar as músicas de Om Kaltoum, Abdel Halim Hafez e Farid El Atrash.Randa declarou ainda que dar aulas lhe proporciona grande realização pessoal e dar aulas tem possibilitado a essa grande bailarina conhecer a dança nomundo todo e semear a essência da verdadeira Dança Oriental por todos os continentes realmente é algo muito especial.

 



 

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Dançando de encontro à criança interior...

“Quem sabe falar sabe cantar, quem sabe andar sabe dançar”, disseram os antigos.


No alvorecer da civilização, nasceu a dança. De roda, redonda como o mundo. Espontânea como as crianças que, mais próximo da origem, talvez ainda guardem a razão por que todos os povos dançam em roda.

Por que? Pergunte às crianças, que talvez dirão: para brincar, mais nada...

Nada? Tudo! O círculo da dança fala que na vida tudo é cíclico, tudo é conectado, tudo começa, amadurece e finda... tudo recomeça de um outro jeito no girar eterno da roda-mundo. O movimento circular é o pulsar do infinito, estruturado no tempo, no ritmo e na melodia.

Dançar em círculo é trilhar na terra o caminho da luz, feito de sol e de lua, de primaveras, de claridade e escuridão, modelos de Deus que se repetem, profundos, na vida humana.

O ritmo circular das estações existiu em todos os lugares, em todos os tempos, em todos os povos, em todas as danças. De roda.

O primeiro movimento desta dança é dar as mãos. “Dai-me a mão e dançaremos, dai-me a mão e me amarás”, disse o poeta.

As mãos dadas em direção ao solo reafirmam o valor da terra-mãe.

Erguidas, buscam o céu, a ajuda dos deuses.


Braços e corações entrelaçados tornam viva a fraterna união, esperança que desponta no giro da dança. Depois é só repetir os passos, fazendo com que o corpo se torne um recipiente de forças do coração, o centro da experiência.

E as crianças, que estão sempre na vanguarda da cultura humana, sintonizadas com sóis, luas e estrelas, sabem por que cantam ou dançam. Por nada, dirão... mas qual será o homem capaz de alcançar esse nada, que é tudo? Qual será o homem capaz de dançar a própria vida, movimento que surge espontâneo do coração, e constrói a ligação com o Deus-cosmo? Esquecer a própria dança é se perder, é viver como um corpo-zumbi, feito de vontades não sinceras.

Dançar é trazer para a consciência, a vida – a vida verdadeira – canteiro onde existem (e resistem) as sagradas flores da alma. Danças de roda, danças sagradas...

Tempos virão, sem dúvida, em que as pessoas – “todas as pessoas” – darão as mãos e dançarão. Na roda da vida descobrirão que as danças despertam flores! Flores da alma!

Pergunte às crianças...

OBS: Texto escrito por Carlos Solano, Professor de Danças Sagradas


Esse texto, escrito por um professor de Danças Circulares Sagradas, é de uma simplicidade e ao mesmo tempo profundidade tamanhas que somente uma criança podeira ter dimensão exata.

Tenho estudado as danças circulares e utilizado essa movimentação, especialmente nas coreografias folclóricas e o que experimentamos é realmente uma sensação de ludicidade, de alegria, de absoluta leveza.

É incrível como , dainte do círculo, a técnia que outrora amedrontava, simplesmente é compreendida muita mais que coporalmente, mas é sentida, vivenciada.  A roda gira e leva todo e qualquer apego, já disse um dia o poeta...

Então vamos dançar nossas alegrias e tristezas fazendo-as girar e girar e girar...

Olho de Hórus...os olhos e o olhar na dança







Olho de Hórus.




Lua, luz que brilha, irradia,

o amuleto para a visão total,

maquiando na força do universo

sentimentos e intuição real.



Oh! Doce beleza espiritual,

renasça em vôo indestrutível,

mergulhe n’alma, traz a visão,

a virtude e a providência vital.



Das Luas que posso contar, olhar,

embevecido ajoelho em céu azul,

mergulho no raciocínio lógico, fantasias,

vivo a força, a proteção em sua magia.



Egito descerra máscaras para a Lua,

eternamente presente na evolução

mergulhando em sensível elevação

vitória da visão, a busca da proteção.



Osíris e Isis dividem o Deus do Céu.

A embelezar o renascimento d’alma,

Indestrutível em seu poder real,

a cura, olhos no horizonte, mente no infinito.

(Flávia Angelini)
 





 
Dentre os significados deste símbolo e imagem da mitologia egícpia, o olho de Hórus simboliza os ciclos lunares: Hórus, tendo perdido seu olho na Lua nova, é depois reconstituído são e inteiro na Lua cheia. Assim, o Olho Uedjat se torna o sinal da plenitude recuperada, da força, do vigor, da proteção, da segurança, da integridade física e da boa saúde. RUNDLE CLARK, professor de História Antiga da Universidade de Birmingham, explica que o tempo da ausência do olho é a estação do medo e da inércia da vida. Um hino do Império Novo fala da Lua Cheia como o tempo das danças. Através de tudo isso percebe-se o temor do homem antigo pelo escuro e o alívio quando a Lua de novo brilha no céu noturno, ou o ritmo do calendário, da estação morta seguida pelo começo de um novo ano e sobre tudo isto, preside o olho.

Na dança do ventre , a força do olhar e sua utilização cênica é muito ampla.
Olhar por detrás dos véus, as mãos marcando o olhar, o olhar por sobre o ombro, o olhar oblíquo... A própria maquiagem árabe dá um destaque todo especial para o olhar.  A sensação de nos remeter a esse passado longínquo e, ao mesmo tempo, aconchegante. Por isso considero o momento de fazer a maquiagem tão importante. É um momento de meditar, de estar em contato com esse espaço interior ao qual os olhos no espelho nos remetem...

A Arte da Maquiagem e dos cosméticos é bastante ancestral e assim como outras artes ancestrais, possui também seus significados e simbologia próprios.




Nas aulas de Dança do Ventre, seria interessante que todas pudessem entrar em contato com essa prática antes de iniciar a aula.  Os resultados na expressividade e até mesmo motivação das alunas são bastante significativos. Não é preciso muita coisa... lápis preto, sombra cobre, rimel e batom e pronto!

 








Isadora Duncan

Na música há 3 tipos de compositores: primeiro aqueles que na música erudita fazem arranjos e buscam, através de seus cérebros, partituras refinadas e habilidosas que encantam os sentidos através da mente. Em segundo, aqueles que sabem como traduzir suas próprias emoções, tendo a música como meio, em alegrias e tristezas de seus próprios corações, criando uma música que desperta diretamente o coração do ouvinte, trazendo-lhe lágrimas pelas memórias evocadas, pelas lembranças vividas. Em terceiro há aqueles que subconscientemente escutam com suas almas uma melodia de outro mundo e são capazes de expressá-la aos ouvidos humanos compreensivelmente e de uma forma agradável.

Existem igualmente 3 tipos de dançarinos: primeiro aqueles que consideram dançar uma espécie de treinamento físico feito de arabesques impessoais e graciosos, segundo aqueles que, ao concentrar suas mentes, guiam o corpo na direção do ritmo de uma emoção desejada, expressando sentimentos relembrados. E finalmente, há aqueles que convertem o corpo numa fluidez luminosa, rendendo-a a inspiração da alma. Este terceiro tipo de dançarino entende que o corpo, dada sua alma, pode de fato ser convertido num fluido luminoso. A carne torna-se iluminada e transparente assim como é mostrada no raio-x - mas com a diferença de que a alma humana é mais clara que esses raios. Quando a alma, em seu poder divino, possui o corpo, converte-o numa nuvem luminosa em movimento e assim manifesta-se na sua total divindade. Esta é a explicação para o milagre de São Francisco andando sobre o mar. Seu corpo não mais pesado como o nosso, tão leve se transformou através da luz.

Imagine um bailarino que depois de longo estudo, oração e inspiração, tenha alcançado tamanho grau de entendimento, que seu corpo seja simplesmente a luminosa manifestação de sua alma; cujo corpo dança em acordo com a música ouvida interiormente, na expressão de algo vindo de um outro e mais profundo mundo. Este é o verdadeiro bailarino criativo, natural mas não imitativo, falando através de movimentos a partir de si mesmo e a partir de algo maior que todos os seres.

Sinto me tão confiante de que a alma pode ser despertada, possuindo completamente o corpo, que quando trouxe crianças para minha escola almejei acima de tudo fazê-las trazer para si mesmas a consciência deste poder dentro delas, da relação que mantêm com o ritmo universal, evocando o êxtase, a beleza desta realização. O meio para este despertar será em parte a revelação da beleza da natureza e em parte daquele tipo de música que o terceiro grupo de compositores nos dá, que surge da alma e fala para a alma.

Há adultos que esqueceram a linguagem da alma, mas as crianças a entendem. É apenas necessário dizer-lhes: "ouçam a música com suas almas. Agora, enquanto ouvem, vocês sentem um profundo despertar interior, vindo de dentro de vocês? - Que é pela sua força que suas cabeças se erguem, seus braços se levantam e que vocês caminham lentamente na direção da luz?"



Este despertar é o primeiro passo na dança, como eu a entendo.

Quando eu comecei a dançar com os movimentos e gestos que minha alma arrebatada sabia como comunicar ao meu corpo, os outros começaram a me imitar, não entendendo que lhes era necessário voltar a um começo, para achar primeiro algo dentro deles mesmos.

Em muitos teatros e escolas via-se este tipo de dançarino, que compreendiam apenas com o cérebro, que sobrecarregavam de gestos suas danças; seus movimentos pareciam vazios, insípidos e destituídos de significado. O que eles traduziam através da mente parecia totalmente de inspiração e de vida. O mesmo acontece com os sistemas de dança que são apenas ginásticas combinadas, compreendidas apenas logicamente (Daltroze, etc). Parece-me um crime impingir as crianças, que não podem se defender, este treinamento prejudicial; pois é um crime ensinar a criança conduzindo seu corpo em desenvolvimento através do poder rígido do cérebro e ao mesmo tempo enfraquecendo seu impulso e inspiração.

A única força que pode satisfatoriamente conduzir o corpo é a inspiração da alma.

(retirado do livro "Minha Vida" sobre o trabalho de Isadora Duncan)

domingo, 8 de agosto de 2010

Texto narrado por Lulu Sabongi em seu vídeo - A Arte da Dança do Ventre

Dando sequência aos materiais poéticos dentro da didática da Dança do Ventre, eis um texto e um poema   belíssimos!

Esse material  faz parte  do primeiro vídeo didático lançado pela professora e bailarina Lulu Sabongi, no início da década de 90, no Brasil. No vídeo, podemos ouvir estas palavras que resolvi digitar por acreditar que devem ser relembradas sempre, na voz da própria Lulu. Todas que estudam a Dança deveriam ter este material para ouvir, mostrar pras alunas, manter a conexão como o feminino arquetípico.



A Arte da Dança do Ventre

O ventre é o símbolo da matriz original, da mãe. Assim como a caverna, a imagem do ventre inspira proteção e calor materno. É no ventre que se assentam os órgãos das funções gástricas que produzem a digestão dos alimentos e, por esta localização, ele é comparado ao laboratório alquímico. Os alquimistas diziam que é preciso alimentar o filho filosófico do ventre de sua mãe. O calor do ventre facilita as transformações mas é preciso que tenha para cada um, e a cada momento de sua evolução, o grau e a intensidade adequados.

A presença do ventre na Dança pode ser notada através dos séculos na Arte, na Literatura e na Mitologia, nas esculturas e em pinturas de cavernas pré-históricas, o testemunho mútuo da existência da importância do ventre no Mundo Antigo.

Em diversos locais do Mundo e principalmente no Círculo Mediterrâneo são encontradas manifestações perpetuadas pela Arte que demonstram a importância do movimento da região ventral e da região pélvica nas danças que cultuavam a fertilidade.


...Um som agudo cinge e circula pela sala.
Com gestos impetuosos, ela sai de sua imobilidade
e repentinamente todo o seu corpo treme acompanhando a música.
Suas mãos estão levantadas tangindo os snujs e ela suavemente gira sob si mesma
fazendo de sua perna direita o pivô, convulsionando maravilhosamente
todos os músculos de seu corpo.
Após ela completar o círculo, ela pára e avança suavemente.
Todos os seus músculos tremem em compasso com a música em sólido e substancial espasmo.
Ela movia uma perna após a outra, como fazem as ciganas em suas danças,
tornando o movimento voluptuoso.
Parando inesperadamente, ela mantinha toda a sua musculatura em movimento.
Caindo sobre seus joelhos, ela contorcia o seu corpo, braços e cabeça girando
acima do chão, ainda com gestos que tangiam os snujs.
Da mesma maneira, isto era profundamente dramático,uma poesia lírica que
palavras não podem descrever: profundo, oriental, extenso e terrível.

(Descrição do jornalista americano Kurts, séc XIX, durante uma viagem de 15 milhas pelo Rio Nilo)

Durante muito tempo e principalmente nos últimos 150 anos, a conceituação da Dança do Ventre sofreu uma metamorfose. Ligada aos espetáculos de variedades, ela quase se desvinculou de seu caráter sagrado.
De origem múltipla, desde a orla do mediterrâneo até os pontos mais extremos do Oriente Médio, aos limites da Índia, a Dança do Ventre surgiu vinculada sempre aos atributos femininos de sedução, fertilidade e espiritualidade. Ela já estava presente nos antigos rituais egípcios e como toda dança ela tem o sentido maior da celebração.

A Dança do Ventre é realmente a celebração da vida.

Nós dançamos como que para afirmar a vida.
Por muito tempo, o binômioforça e vida foi celebrado assim, respeitando os ciclos naturais, especialmente a chegada da Primavera e o renascer das forças da Natureza. Desta forma venerada, em todas as suas manifestações, vegetal, animal, imagens cósmicas do sol e da lua, o binômio força e vida trnasformou-se em Mito, criados assim para explicar os fenômenos naturais.

Devido sua origem desconhecida, a Dança do Ventre que conhecemos hoje provém de um passado remoto e foi possivelmente transmitida por povos nômades que margeavam o Norte da África e os confins da Ásia, ciganos que levavam sua cultura atravésdassuas necessidades de manutenção.

Em cada região que paravam para comercializar suas produções, quer animal ou artesanal, sempre acabavam agregando à sua cultura algum elemento local e também la deixavam, bem denunciada, a sua passagem. É por isso que muitas danças, de diversas regiões do Oriente, com nomes específicos, são muito semelhantes à Dança do Ventre que conhecemos hoje. Na Grécia, ela é conhecida como chiftitelly,   no Egito raqs sharqī(رقص شرقي

O mundo ocidental também teve as suas "danças do ventre" mas infelizmente isso hoje é uma tradição perdida por culpa da religiosidade católica e sua excessiva observância sobre a lacívia do corpo em movimento.

Podemos concluir que , com a explosão da Dança do Ventre na atualidade, a mulher traz de volta a figura do feminino erótico que durante muito tempo ficou soterrado pela incapacidade masculina em lidar com o mundo integrado também pelo amor e não apenas pelo excesso de poder.

O quadril é a força motriz da Dança do Ventre. E é nessa região onde nascem os movimentos e para onde eles retornam.  (Lulu Sabongi)


E pra finalizar, um detalhe dotexto da contra capa do video...tudo perfeito, até nos detalhes:


Dança do Ventre – O Resgate do Feminino Arquetípico




Segundo Carl Gustav Jung, um dos nossos deveres primordiais é reconciliar o civilizado e o primitivo que existem em nós e redescobrir esta intensidade de viver, desaparecida, que ainda é encontrada nos rituais e nos festivais de Dança e de Música.

A tradição da Dança Árabe que aceita o corpo qualquer que seja sua forma e aceita a afirmação da sensualidade da mulher, qualquer que seja a sua idade, permite à mulher revalorizar a imagem que tem de si mesma.

“Nós dançamos como que para afirmar a vida. E como base de toda dança tem o sentido maior da celebração, a Dança do Ventre é realmente a celebração da vida.”

(texto extraído da contra capa do vídeo didático de Lulu Sabongi – A Arte da Dança do Ventre)

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Raqs Khaliji



Raks Khaliji - Evolução histórica de uma dança folclórica
Por Luzimar Paiva Publicado 26/05/2009


História e origem



A Península Arábica foi habitada desde 5000 a.C. Entre 4000-2000 a.C., os estabelecimentos ao longo da costa oriental da península dominaram o comércio entre a Índia e a Mesopotâmia. Os povos desta área tiveram sempre estreitos laços com os povos do Noroeste da Índia e do Paquistão.



Em torno de 3000 a.C., o Sudoeste da Arábia transformou-se a principal rota de comércio entre a Índia e as civilizações mediterrâneas. O incenso e a mirra, o café, os temperos e o algodão foram adicionados à riqueza deste comércio. Os comerciantes chegavam ao porto de Aden, em seguida os bens eram transportados para o Norte em caravanas de camelos ao longo da costa ocidental. Alguns arqueólogos acreditam que a famosa rainha de Sabá era oriunda do Sul da Arábia e viajou para o Norte ao longo desta rota de comércio para encontrar com o rei Salomão.



O comércio diminuiu na segunda parte do século (três mil toneladas de incenso), quando os gregos e, depois, os romanos encontraram rotas de comércio alternativas. Os romanos adotaram os rituais de sepultamento mais simples dos cristãos sem incenso e sem mirra.



As cidades importantes ao longo desta rota do comércio de caravana incluíam Medina e Meca. O profeta Maomé nasceu em Meca e mudou-se para Medina em 622 d.C. em conseqüência da perseguição religiosa. Os seguidores de Maomé espalharam a religião islâmica para fora da Península Arábica e, Bagdá transformou-se na capital do Império Islâmico por sete séculos.



A Península Arábica tem uma longa história de migração, de regionalismo e de autonomia tribal, além da influência dos persas, dos egípcios e do Império Otomano. A família de Saud mudou-se para a região central seca da Península no século XV e aumentou seu controle nas áreas centrais e ocidentais, enquanto a influência do Império Otomano diminuía. Em 1932, o Reino da Arábia Saudita, que cobre aproximadamente oitenta por cento desta península, foi fundado.



Figurino e utilização de cores



Para discorrer sobre a dança e o figurino khaliji com uma terminologia étnica apropriada é necessário entender que: usar roupa fechada como meio de conservar a umidade e proteger o corpo do sol é tradicional na Península Arábica.



As roupas típicas tradicionais muito largas, longas e ricamente bordadas são usadas na execução de uma dança que freqüentemente nos referimos como "dança das mulheres sauditas" ou "dança do Golfo", geralmente colocadas por cima da roupa normal ou da típica roupa de dança do ventre.



Este vestido tradicional teve originalmente variações regionais, entretanto o uso difundido da máquina de costura nos últimos trinta anos e a modernização e a urbanização da Península Arábica resultaram no tobe (bata, caftan, toga, vestido, capa, galabia) ou thawb nashal, originalmente usado no Najd, ou Arábia Central, transformando-se depois no traje tradicional das mulheres ao longo da área do Golfo.



E como esse vestido largo é realmente chamado?



O tobe nashal é uma capa grande, semitransparente. Era usado sobre a roupa normal (dharaah ou kaftan, freqüentemente com cavas bordadas) e sobre a sirwaal (calças com as faixas bordadas no tornozelo de origem turca).



Os sauditas parecem referir-se ao vestido como o tobe. Os kuwaitianos chamam-no de darrah zerri (darRAH ZEDdi). Darrah é um termo geral para vestido e zerri é traduzida como lantejoula.



Os catarianos parecem ter diferentes nomes para esta vestimenta, podendo chamá-la de:



tobe el neshel

(tobe el NESHel), porém é difícil encontrar o real significado para a palavra Neshel. Pode-se traduzir neshel como bordado;
darrah zerri;

tobe tawoose (tobe taWOOS), que significa vestido de pavão.

O pavão é um dos temas mais comuns do bordado, executado freqüentemente pelos artesãos do Noroeste da Índia e do Paquistão, que produziram tecidos e bordados para os povos da Península Arábica por muitos séculos. Barein também produz bonitos tobes.
O tobe é feito de tecidos como o chiffon ou a seda pura, que denotava status social e riqueza.
A túnica é sempre bordada no peito, nas bordas das mangas, na barra, na parte de trás e em outros lugares. A decoração é farta, utilizando-se para as costuras linha metálica dourada e prateada em sentido vertical ou bordado de seda e paetês, além de, às vezes, aplicarem-se jóias ou pequenos guizos. A parte dianteira da abbay (bisht), roupa masculina, também é bordada com as mesmas linhas.

Alguns dos mais famosos vestidos femininos do Catar, el neshel, el tawoose e el darrah, possuem cores brilhantes e são decorados com ornamentos artísticos.

Uma característica incomun do tobe é o reforço das cavas com muito bordado, que é usualmente retirado de uma capa antiga já desgastada e aplicado sobre outra, mais nova.

O tobe é chamado freqüentemente de vestido de casamento, porque era o traje do Najd para a cerimônia de casamento. A noiva usa-o na cor branca, embora a cor preta com bordado dourado seja comum para as outras mulheres.


Hoje em dia, as mulheres árabes vestem o tobe sobre sua roupa de festa quando dançam (em uma festa ou numa celebração). As jovens também podem usar este traje tradicional para apresentações na escola.



Dança



A evolução da dança levanta muitas dúvidas para quem quer estudar a fundo. Se olharmos a dança como uma extensão da cultura de distintos povos, nós poderemos traçar suas origens. Num ambiente global, isto está-se tornando cada vez menos possível. Devemos tirar vantagem do conhecimento da tradição enquanto ainda podemos fazê-lo.



Em árabe, khaleege ou khaliji significa relativo ao Golfo. Pronuncia-se Raligi. Está relacionado ao estilo nativo de música dos países do Golfo Pérsico, hoje Península Arábica (Arábia Saudita, Barein, Emirados Árabes, Kuwait, Omã e Catar).



Na dança do ventre, as bailarinas utilizam-na para identificar o estilo de música e de dança desta região. Ficou conhecida como "a dança das mulheres sauditas". Nomenclatura equivocada, uma vez que há não relatos conclusivos a respeito da origem da dança.



A raqs khaliji é uma dança tradicional de confraternização, praticada somente pelas mulheres, que interagem entre si, para se divertirem, ainda hoje, em festas e em momentos de celebração, como casamentos. Porque a dança evoluiu nas sociedades mais modernas do Oriente Médio nouveau riche, em algumas regiões agora é aceitável apresentar-se em reuniões mistas.
A dança é executada em grupos ou em pares e é, em sua maior parte, improvisada e, portanto, é possível ver muitas mudanças na forma.
Segundo Campbell, as bailarinas repetem os passos várias vezes, improvisando dentro de uma estrutura de movimentos tradicionais, enquanto permitem que a bailarina mais inteligente e mais original inove.
Azar afirma que as jovens que se levantam e dançam estão cônscias da observação e possível consideração das mulheres que permanecem sentadas. Elas podem ser escolhidas para se casar com um filho, um irmão, um primo ou outro parente do sexo masculino.
É importante lembrar que esta dança não é executada em toda parte do Golfo.

Os omanis (pessoa natural de Omã), por exemplo, não executam esta dança, uma vez que não faz parte de sua herança cultural.
Os sauditas chamam-na de raqs al khaliji (/rraleegee/ pronunciado), que significa dança do golfo. As mulheres ficam separadas dos homens e são acompanhadas por músicos mulheres. As mais velhas não gostam que as jovens sejam tímidas e incentivam-nas a se levantar e a dançar.

Os catarianos (habitante do Catar) parecem estar de acordo com seus companheiros wahabitas, os sauditas, e usualmente chamam a dança de raqs khaliji.



No Kuwait é chamada de Samri (SAUMri), devido ao ritmo que a acompanha. Samri é um ritmo lento e, a execução tradicional da dança não é muito rápida. Hoje em dia, este ritmo aparece junto a outros ritmos mais vívidos e tem recebido acréscimos de movimentos e de sentimentos que variam de país para país. As mulheres às vezes realizam um desafio amigável, no qual deixam crescer o cabelo para enriquecer sua dança. Os homens e as mulheres ficam em lados opostos de um salão.



Nos Emirados Árabes, a dança das mulheres é chamada na'ashat, em alusão aos movimentos realizados com o cabelo ao som do ritmo. Em Abu Dhabi, capital dos Emirados, é conhecida como a raqs neshat (raks neSHAT).



Os nativos do Golfo realçam a falta de naturalidade das tentativas das bailarinas egípcias de executar a Samri. Os movimentos são demasiado grandes e os pés estão demasiado distantes, além das interpretações da dança deixarem a desejar.



MÚSICA E RITMO



Música



Um dos aspectos mais marcantes da música do Golfo é a maneira gutural de empostar a voz, diferente do canto operístico, no qual a voz é trabalhada no timbre, na tessitura, na afinação. Nas festas populares, o canto, muitas vezes coletivo, é acompanhado por instrumentos de percussão que podem ser substituídos ou ajudados por instrumentos de sopro.
Nas cidades, temos o violino, o alaúde e o kanun (ancestral da harpa), e, mais recentemente, o órgão eletrônico ou teclado, amplamente usado devido à diversidade de recursos oferecidos e à compensação de algumas deficiências musicais, como criatividade e domínio técnico.

Além das canções para as festividades, onde tomam parte danças elaboradas, outros gêneros são usados em corridas de cavalos, em nascimento de camelos, ou para simples diversão com jogos rápidos de palavras.
Várias mudanças vêm ocorrendo no Golfo desde o começo do século, e a principal razão é a comercialização do petróleo, que permitiu a esses países alcançar uma riqueza jamais experimentada em sua história. O povo hoje tem acesso a todo o tipo de modernidade e tecnologia, o que provoca alterações nos hábitos e costumes.
Nas gravações modernas vemos forte influência do estilo egípcio e da tecnologia de estúdio, disseminados largamente por todo Oriente Médio. É a música de consumo, que lança cantores pop em shows de TV e em clipes e que alcança grande vendagem de discos.
Atualmente a música khaliji é bastante ouvida acompanhando a música moderna, especialmente nos Emirados Árabes. Um cantor saudita que a exemplifica é Mohammed Abdou.
Os governos têm estimulado a criação de conservatórios nacionais para favorecer produção de música com identidade nacional. Os cantores desse gênero mais elaborado são convidados para turnês e festivais pelos países árabes, o que termina por influenciar os artistas locais.



Ritmo



Hoje em dia o khaliji é executado freqüentemente com música popular moderna.



Há, porém, um ritmo tradicional específico e muito distinto, o ritmo adani do Iêmen, que os músicos ocidentais chamaram de saudi ou saudita ou de khaliji, hipnótico com andamento 2/4 (pausa 1+2) com duas batidas pesadas e uma pausa, caracterizado pelo toque sincopado do tabel e pela música tradicional com o alaúde.



Hossam Ramzy, percussionista egípcio, certifica que não existe somente um ritmo chamado khaliji. Os ritmos da área do Golfo são centenas. Todos são chamados de khaliji. A maioria dos ritmos desta área sofreram ou sofrem fortes influências, principalmente das tribos do deserto, das rotas da seda, dos temperos e do comércio de escravos da África Central, que normalmente levava vários ritmos com ela. A velocidade do ritmo varia de tribo para tribo e também de acordo com a emoção própria da canção.



Coreografia e gestual envolvido



A bailarina usa um passo sincopado ou mancado.



Um pé no chão marca a batida pesada e o outro, em meia ponta, marca a meia batida. O passo dado pela meia ponta levanta a bailarina e dá ao passo a característica leve de subida/descida. A bailarina move-se no sentido do pé que está no chão, com o outro pé em meia ponta ligeiramente atrás ou cruzado à frente do pé que lidera.



Este mancado ou passo sincopado é similar aos usados em danças de vários países como o Marrocos e o Afeganistão, na dança núbia (Egito), e no balé russo. O que não surpreende, devido à história de dominação naquela região.



A pausa do ritmo permite também uma mudança na passada de um lado para o outro (EsqDirEsq DirEsqDir), neste caso o passo que eleva é enfatizado para promover a mudança do pé que está no chão.



É possível verificar em tribos que vivem originalmente ao longo da costa oriental da Península Arábica, vários movimentos corporais tradicionais. No Najd, ou área central isolada, que hoje é a Arábia Saudita, presumivelmente eles seriam diferentes.



A raks khaliji é caracterizada pelos seguintes movimentos:



de cabeça, utilizando-se um deslizar lateral com a parte da frente da roupa segurada longe do corpo e/ou escondendo parte do rosto ou realizando oitos ou ondulações;

de corpo, lentos, suaves, delicados e bem marcados;

de tronco, podendo balançá-lo ou ondulá-lo;

de mãos, realizando torções e vibrações, ou gestos, como colocá-las ao lado do nariz;

de braços, com determinadas posições e molduras;

de ombros, tais como o xime, enfatizado pelo bordado do traje;

de quadris, para cujo encontro o traje pode ser puxado para enfatizar seus movimentos, que de outra maneira não poderiam ser vistos sob o volume;

de pés, cujo trabalho é muito simples e rítmico;

de cabelo, cujo papel fundamental é na dança khaliji, por isso as mulheres têm muito orgulho de seu belo cabelo. Eles podem ser jogados de um lado para o outro, para a frente e para trás, ou quando ajoelham-se na parte mais dramática da música;

evoluções envolvendo o vestido khaliji, como moldura, às vezes prendendo-o em uma das mãos e deixando-o mover-se em torno do corpo, ou, condizente com a natureza larga da bata, cujas cavas são enormes, podem ser colocadas sobre a cabeça como um véu.

As mulheres de todas as idades deixam seu cabelo voltados para baixo ao executar a dança. As que tem os cabelos mais longos e mais bonitos lideram a dança principal. As senhoras idosas e casadas geralmente são reprimidas em sua vontade de dançar, contudo a mais tradicionalista e mais conservadora, num momento festivo, pode retirar seu véu (hijab ou véu islâmico) para marcar a batida com o cabelo solto, balançando para direita, e depois para a esquerda, até chegar ao ponto de poder executar oitos atrás da cabeça.



Supostamente esta dança está ligada à simulação de acontecimentos cotidianos no Golfo.



Há movimentos reputados à imitação do gestual dos cavalos que elevam suas cabeças, ou balançam suas crinas, por exemplo. Ou que originalmente era uma reprodução dos fatos que envolviam a pesca de pérola e a vida no mar. O vestido é balançado em movimentos ondulantes para imitar a ação das ondas.



As bailarinas tocam com a mão ao lado do nariz como um mergulhador o faz ao descer ao fundo das águas em busca das ostras. O cabelo é jogado numa mímica das algas que flutuam nas correntes do oceano.



Há incontáveis interpretações.



As viagens e a televisão dão às mulheres noções do que é realizado em termos de dança, tanto que nós podemos perceber que mulheres sauditas adicionaram um pequeno ondular com seus quadris, um movimento emprestado de uma dança iraquiana. Há um videoclipe, no qual uma mulher imita o gesto de Fifi Abdo, agitando seu abdômen com sua mão.



Há muitos acentos e movimentos bastante diferentes do tradicional Samri, dependendo de onde se vive e a que se foi exposto.



Atualmente nos shows profissionais realizados em casas de show longo da Península Árabica, a bailarina não utiliza mais a bata. Provavelmente devido à necessidade de mostrar os movimentos realizados pelo quadril, que estão mais vigorosos. Essa tendência têm sido chamada de khaliji moderno.



Referências



Abdulaziz, Leila and Azar, Aisha. Raqs Nejdi hadith: workshop notes. May 2002.



Abercrombie, T. Arabia's frankincense trail. National Geographic, v. 168, n.4, p. 474-513, Oct. 1985.



Azar, Aisha. Are we confused yet? a lesson in folkloric dance and costume terminology: In: http://raqsazar.com/areweconfusedyet.html. Acessado em 2-7-2007. Originalmente publicado na Jareeda, Mar. 1996 and revised Jan. 2000.



________. Observations on Samri. In: http://raqsazar.com/observationsonsamri.html. Acessado em 2-7-2007. Originalmente publicado na Zaghareet, Nov./Dec. 1999.



Campbell, Kay Hardy. Loosening their tresses: women's dances of the Arabian Gulf and Saudi Arabia. Habibi, v. 16, n. 3, Fall 1997.



________. Traditional dancing costume of Saudi Arabia. Sistrum, Feb. 1997.



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Metne, Flávio Ganem. Traços gerais do khalige. Oriente Express, 1998. In: BOMENTRE, Simone. História da dança: uma coletânea de textos, artigos, trechos de livros. www.bomentre.com.br/historia.htm. Acessado em 18-6-2007.



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Stewart, Kerry.Khaleegee: dance of the Gulf. Artigo atualizado em 22-12-2004. http://members.iinet.net.au/~damask/fig8/adani/khal.htm Acessado em 19-6-2007.



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Fonte: http://www.webartigos.com/articles/18662/1/Raks-Khaliji---Evolucao-historica-de-uma-danca-folclorica/pagina1.html.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

O corpo jubiloso, a carne selvagem - O poder das ancas


O texto que publico hoje traz uma reflexão sobre a força do feminino , o corpo e a dança.
Nos leva a pensar em como estamos nos colocando dentro dessa expressão corporal que chamamos Dança do Ventre.  Estamos sendo autênticas o suficiente?  Ou estamos nos punindo por não sermos algo idealizado dentro de uma ótica distante de quem realmente somos? Não seria mais fácil criarmos um ideal e nunca conseguirmos atingí-lo, nos permitindo permanecer numa zona de conforto onde há racionalidade e domínio da técnica além de uma confortável distância de si mesmas.  No entanto, isso nos faz dançar de forma comedida, tecnicista e a dança vai perdendo o sentido e o encanto e vai se perdendo cada vez mais.
Mas quando nos permitirmos avançar e rasgar as barreiras que nos afastam da essência, daí tudo muda e obtém um significado real.  Como disse Milton Nascimento,  "Nada a temer senão o correr da luta , nada a fazer senão esquecer o medo. Abrir o peito a força, numa procura, fugir às armadilhas da mata escura."




O poder das ancas



O que constitui um corpo saudável no mundo instintivo? No nível mais básico – o seio, o ventre, qualquer parte onde haja pele, qualquer parte onde haja neurônios para transmitir sensações - a questão não é a do formato, do tamanho, da cor, da idade; mas, sim, se existe sensação, se funciona como deveria, se temos reações, se temos todo um leque, todo um espectro de sentimentos. Ele tem medo, está paralisado pela dor ou pelo receio? Está anestesiado por traumas antigos? Ou será que ele tem sua própria música? Está ouvindo, como Baubo, através do ventre? Está olhando com uma das suas inúmeras formas de ver?

Passei por duas experiências decisivas quando estava com vinte e poucos anos, experiências que contrariavam tudo o que me haviam ensinado sobre corpo até então. Quando estava num seminário de uma semana de duração para mulheres, à noite, junto ao fogo e perto de fontes termais, vi uma mulher nua, cerca de 35 anos. Seus seios estavam murchos de amamentar; seu ventre, estriado de dar a luz. Eu era muito nova e me lembro de ter sentido pena das agressões sofridas pela sua pele fina e clara. Alguém estava tocando tambores e maracás, e ela começou a dançar, com o cabelo, os seios, a pele, os membros todos se movimentando em direções diferentes. Como era linda, como era cheia de vida. Sua graça era de partir o coração. Eu sempre havia ridicularizado a expressão “furacão nos quadris”. Naquela noite, porém, vi um exemplo. Vi o poder de suas ancas. Presenciei o que me haviam ensinado a ignorar: o poder do corpo de uma mulher quando é animado de dentro pra fora. Quase três décadas mais tarde, ainda posso vê-la dançando no escuro e ainda sinto o impacto da força do corpo.

O segundo despertar envolveu uma mulher muito mais velha. De acordo com os padrões vigentes, seus quadris eram excessivamente parecidos com peras, seus seios eram ínfimos em comparação, e suas coxas eram totalmente cobertas por finíssimas veias arroxeadas. Uma longa cicatriz de alguma cirurgia grave circundava seu corpo, indo desde a coluna vertebral até as costelas, como um corte para descascar maçãs. Sua cintura devia ter a largura de quatro palmos.

Era, portanto, um mistério o motivo pelo qual os homens zumbiam à sua volta como se ela fosse um favo de mel. Eles queriam morder suas coxas de pêra, lamber aquela cicatriz, segurar aquele peito, descansar o rosto nas teias de suas varizes. Seu sorriso era estonteante; seu caminhar, extremamente belo. E quando ela olhava, seus olhos realmente absorviam o que estavam vendo. Vi novamente o que haviam ensinado a ignorar, o poder no corpo. O poder cultural do corpo é a sua beleza mas o poder no corpo é raro, pois a maioria das mulheres o expulsou com torturas ou com sua vergonha da própria carne.

Tendo em vista o exposto, a mulher selvagem pode pesquisar a numinosidade do seu próprio corpo e compreendê-lo, não como um peso morto que estamos condenadas a carregar por toda a vida, não como uma besta de carga, mimada ou não, que nos carrega por aí a vida inteira, mas como uma série de portas, sonhos e poemas através dos quais podemos obter todo tipo de aprendizagem e conhecimento. Na psique selvagem, compreende-se o corpo como um ser por seus próprios méritos, que nos ama, que depende de nós, para quem, de vez em quando, somos a mãe e que, de vez em quando, representa a mãe para nós.



(extraído do livro Mulheres que correm com os lobos – Clarissa Pinkola Estés)