quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Feminino Arquetípico I


Feminino Arquetípico I

          Hoje vou postar  um pouco do que é abordado nos cursos do "Feminino Arquetípico" que estou ministrando no nosso Núcleo Cultural.
          Trabalhar com o Feminino e ter um Núcleo voltado para este fim é um privilégio que requer muito estudo, confiança nas capacidades intuitivas, generosidade e responsabilidade.
           O curso que elaborei tem por objetivo resgate e contextualização através do estudo das origens da dança que é a mais repleta de arquétipos femininos: a Dança do Ventre. Ela é por si só um arquétipo, quer a pessoa que dance tenha essa consciência ou não. Mas o fenômeno da modernização da Dança do Ventre, tem aproximado muito mais essa manifestação do estereótipo do que do arquétipo. O que isso significa? Significa que, a cada dia, podemos ver mais e mais mulheres buscando inconscientemente um arquétipo mas chegando em locais que tratam desta modalidade de maneira que os símbolos, responsáveis pela propagação do arquétipo, estão sendo mais e mais descaracterizados e fundidos com outros elementos. A cada dia vemos mais e mais dançarinas executando os movimentos pela metade, de maneira acelerada e até, por que não dizer, desesperada, mecanicista e robótica. 
          Mas enfim, compreendermos os conceitos de símbolos, arquétipos e estereótipos, bem como conhecer as características do feminino na dança, podem contribuir  para mantermos nossa conexão com a essência da Dança, aquela que originalmente nos atraiu de alguma forma para a prática da modalidade.
Cristina Schafer

O cinto ou o lenço amarrado em torno dos quadris por cada mulher que pratica a Dança Oriental, nos lembra da dança de Ishtar e transforma a mulher de hoje em intérprete de uma cultura há muito tempo esquecida.“
Rosina-Fawzia Al - Rawi, Grandmother´s Secrets.


         Para compreendermos como somos levados inconscientemente,  pela Dança, precisamos voltar na História, em como tudo começou. 
          Qual a origem da dança com movimentos pélvicos?


           A origem da dança com movimentos pélvicos, parecidos com os movimentos da Dança do Ventre, tem origem anterior aos templos egípcios e é sumeriana. Rituais eram praticados por mulheres, sacerdotisas sumerianas, num período matriarcal, onde a mulher era reverenciada pela sua capacidade de gerar uma vida. O ápice desses rituais se deram na Antiguidade nas danças de culto a Inanna, também conhecida como Ishtar.
          Se a dança com movimentos pélvicos não surgiu no Antigo Egito, mas bem anteriormente, como é que a dança foi parar em domínios árabes? 
          Na verdade, foi um longo caminho desde o auge das conquistas do novo Império Assírio, de 1000 a.C a 600 a.C. até o Império Otomano apropriar-se da Dança e difundi-la da maneira como conhecemos hoje: sem nenhum contexto religioso. Ainda no período do Império Assírio, rituais egípcios foram assimilados pelos cultos sumerianos. O inverso, no entanto, não ocorreu, sendo que os rituais egípcios permaneceram intactos. Foi com a queda do Império Romano que o Império Otomano emergiu, perpetuando a dança não ritualística, nas mãos dos árabes.

          O Império Otomano foi uma grande potência muçulmana uma das únicas a desafiar o crescente poderio da Europa Ocidental entre os séculos XV e XIX.
         Os povos que faziam parte do Império Otomano excluíram a dança ritualística e intensificaram a dança profana, a dança comercial. A mulher passa de deusa a escrava, marginalizada, usou por muitas vezes a dança como forma de sobrevivência. O grande Império Otomano, “eliminou” as deusas e modificou os olhos do homem em relação às mulheres. A dança passou a ser explorada como objeto sexual masculino. 
Alguns países que compunham o Império Otomano como o Egito, a Síria, a Turquia e até mesmo a Grécia e Espanha, tomaram posse e usaram a dança como ferramenta política e sinônimo de poder através dos harens. Apesar da origem dos harens ainda ser obscura, foi durante o Império Otomano que os harens ganharam fama e poder e o mundo conheceu seus mistérios. 
Pais vendiam filhas, mulheres dançavam para conquistar xeiques,  xeiques mediam seu poder pelo tamanho e quantidade de mulheres em seus harens, mulheres dançavam em tabernas, ninguém mais lembrava da origem ritualística da dança...
Frederick Arthur Bridgman (1847 –1928) 


          Da proibição a dança ritualística nasce a Dança do Ventre e a exploração do que anos mais tarde chamaremos de Arte. 

          Pronto, agora você já sabe a origem sagrada, ritualística, que reverenciava a feminilidade, de um período matriarcal onde as mulheres dançavam para si mesmas, para beneficiar seu corpo e fortalecer sua alma. Este é o "arquétipo". O que é representado pela origem através dos símbolos (a linguagem da dança da maneira mais primitiva e intuitiva possível).
Gaston Casimir Saint Pierre

                   Já conhece também o que tornou-se a Dança, símbolo de poder, dinheiro, onde o feminino foi banido, a dança comercial onde um padrão é exigido, onde mulheres dançam e competem para agradar seus xeiques, como nos antigos haréns.

                     Agora você já pode escolher que dança você quer praticar.

              Não precisamos de um templo ou religião para nos conectarmos à essência, ao arquétipo. Porque o templo de que necessitamos simplesmente é o nosso próprio corpo, onde reside nosso religare, que pode ser chamado de psiqué ou alma. É nesse templo, através dos movimentos e da música adequada, que você pode acessar os conteúdos da alma libertando sua dança da aceitação alheia, dos padrões pré-fabricados por outros, construindo uma dança
rica de significados  e totalmente sua.

Quando você dança, a quem você pretende reverenciar ou agradar?
A uma pessoa especial...
A um público...
A suas colegas...
ou a si mesma?


         Se você respondeu a si mesma, e se essa afirmativa é realmente verdadeira e não ilusória, então você já percorreu metade do caminho. Sua dança simplesmente deixa de ser sua quando a preocupação é o outro.

          Dançar aos ritmos orientais requer um pensamento oriental . Mas se quisermos ir além do estereótipo dos haréns, temos que nos conectar com a Dança Ancestral. Quando a dança segue um padrão ocidental, toda sua magia, sua ancestralidade, sua filosofia, perdem-se no ar. nessa jornada rumo a uma Dança Criativa, uma Dança do Ventre Livre, precisamos dominar o essencial: a música e o movimento

         "O ritmo traduz a emoção corporal e movimento, já a melodia expressa sentimentos, dizendo diretamente respeito aos estados da alma, às paixões, ao coração."(ANGELIM)

          Este é um conceito musical. Enquanto não mudarmos nossa capacidade de ouvir, não teremos a capacidade de dançarmos a melodia em sua profundidade. Enquanto não estudarmos a música árabe como deve ser estudada, ficaremos patinando nessa dança vazia de arquétipos.
           A música árabe é a perfeita exaltação ao feminino. A Dança Árabe também trouxe muitos traços femininos até ser intensamente Influenciada pelo Ocidente. A música árabe apresenta uma característica única: riqueza melódica. Podem observar: Flautas, alaúdes, qanons extraem sons riquíssimos, notas detalhadas de expressão da alma. Mas o que nós vemos algumas dançarinas modernas fazer com toda essa riqueza?  Ignorar completamente. Simplesmente não sabem ouvir, ouvem apena uma coisa: o ritmo   


          Para conquistarmos uma liberdade deliciosa de expressividade criativa, precisamos dominar completamente os movimentos básicos da Dança para que possamos estar centradas neles, e não dispersas na periferia da dança.  E mais que isso, precisamos conectar esses movimentos corporais essenciais à melodia e ritmo da música.
            A Dança do Ventre não precisa ser inventada em termos de movimento. Tudo já existe. O que precisa ser resgatado é justamente a capacidade da dançarina tornar-se a música, como se o seu corpo fosse um instrumento musical, a representação visual do som.
               Então parece ser bem simples:  eu aprendo a ouvir a música, aprendo a executar
movimentos dentro dela e estamos resolvidas. Na verdade, esta é a chave de Alice pra sair da toca do coelho rumo ao misterioso País das Maravilhas. A chave abre uma porta mas  o que você vai vislumbrar por detrás dela é muito maior que isso. É todo um caminho a percorrer até “matar o Jaguadarte” e recuperar o reino da Rainha Branca. A chave, você já tem em mãos. O caminho é por sua conta. Como você vai colocar mais e mais sentimento, como você vai inspirar-se mais e mais a cada dia.

              Algumas músicas facilitam bastante este tipo de interpretação por serem construídas para representar a beleza da música árabe sem preocupar-se em enquadrar-se nos padrões ocidentais, mas ao mesmo tempo, com arranjos belíssimos para a dança. Dois grandes nomes que eu recomendo estudar: Omar Faruk e Hossam Ramzy
             Hossam Ramzy eu já citei anteriormente, sua música é elaborada para a dança, é rica, completa.  
          Omar Faruk, na minha opinião, é o músico do feminino. Sua música traz a calma e a tranquilidade do feminino, dosadas com elementos delicados percussivos. A música de Omar Faruk é com certeza uma chave para acessar os conteúdos femininos do inconsciente e eu aconselho você experimentar!
       Já imagens do feminino você encontra na dança de Soheir Zaki e Nagwa Fouad, especialmente. Lá tem conteúdo aos montes do feminino arquetípico! Divirta-se!
               
                












0 comentários:

Postar um comentário